Arrumação


Jornal O Estado do Maranhão

          Bibliotecas são modelos perfeitos da lei da entropia, tendência de aumento, com o passar do tempo, do grau de desorganização de um sistema fechado. (Suponhamos que elas constituam sistemas fechados). Essa ideia, visitante frequente de minhas divagações noturnas, se revelou concreta recentemente quando a percepção da bagunça imperante em minha biblioteca quase me levou ao desespero e me alertou acerca da necessidade de evitar os custos de horas e horas perdidas em procuras inúteis. Livros que eu tinha a certeza de gozarem de tranquilo repouso nas prateleiras não podiam ser localizados, justamente na hora de grande necessidade. Papéis importantes não apareciam. Aquele recorte de jornal, a ser usado algum dia como fonte na produção de um texto importante e transcendental, de interesse da humanidade, sumido. Os desaparecimentos me lembravam daqueles dos personagens de A revolta de Atlas, de Ayn Rand. A certa altura da trama romanesca, eles sumiam sem explicação.
Com determinação lancei-me à empreitada de colocar ordem na casa. “Na casa” não é força de expressão porque, considerando tempo que passo na biblioteca, ela é quase minha casa mesmo.
O ataque imediato foi às obras espalhadas pelo chão do quarto, ao lado da cama, da rede, entulhados na mesinha de cabeceira. Depois, às em cima da mesa da sala e ao lado da televisão. Não, no banheiro não havia nenhuma nem na cozinha. De algumas, minhas lembranças já estavam quase apagadas. Olha só, eu dizia a mim mesmo, esta edição de Dom Casmurro, eu já não me lembrava dela.
Terminada a incursão pelos aposentos, um carrinho do tipo de supermercados serviu de transporte aos volumes até a antiga morada, seu lugar de origem, a biblioteca, de onde nunca deviam ter saído e para onde deveriam ter voltado muito antes. A tarefa era criar espaço para eles. Mas, não dizem “quem foi ao ar, perdeu o lugar”? Pelo menos, diziam. Pois eles tinham ido precisamente ao ar – e também ao chão, às cadeiras, às mesinhas –, e perdido o lugar. Novos exemplares tinham, sem mais demora ocupado as vagas disponíveis. Talvez seja melhor dizer que tinham se apossado delas. Solução radical e, como tive consciência mais tarde, dolorosa, se impunha. Empilhar tudo na área da biblioteca era atividade de risco pela ameaça permanente de soterramento. Vieram-me à lembrança as cenas recentes dos deslizamentos de terra nas cidades serranas do Rio de Janeiro. A diferença é que, no meu caso, nem haveria necessidade de chuva para a ocorrência da tragédia.
Com relutância admiti a utilização de medida até então não considerada: a adoção dos desalojados por almas caridosas. Trauma sofrido por mim há mais de quinze anos em Brasília me atormentava, no entanto. Eu fora a um sebo numa fatídica manhã de sábado, na Asa Norte. Lá vendi, pela mesma razão de agora, falta de espaço, um dicionário Caldas Aulete, em vários volumes, publicado, creio, nos anos sessenta. Depois, arrependido, tentei a anulação do negócio, sem sucesso. Alguém já o havia adquirido. Eram dias, agora, de indecisão, mas, sem alternativa, levei adiante a ideia.
Ao fazer a seleção dos livros com a finalidade de fazer a doação a suas novas famílias, criando com isso espaço para os que permaneceriam, dei explicações a eles e procurei consolá-los e a mim mesmo: vocês estarão mais bem acomodados em outra biblioteca, nada de mal lhes acontecerá, tenham certeza, ninguém vai rasgar suas páginas, quem sabe no novo lar haverá até um sistema de prevenção de incêndio, etc.
Terminada a primeira etapa, comecei a distribuição entre pessoas bondosas o suficiente para não deixarem nenhum deles ao relento, num lixão, pegando sol e chuva até se desintegrarem na mãe natureza, numa fábrica de papel reciclado ou, suprema perversidade de gente desalmada e suprema humilhação dessas criaturas, em usos menos do que nobres em instalações sanitárias públicas ou mesmo em privadas.
Dias após, notei alguns dos retornados às prateleiras repousando de novo ao lado da cama. Trabalho de Sísifo. Trabalho à toa? Onde seriam acomodados os livros recém-adquiridos?

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